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Punho de ferro: a Netflix também erra

Existem séries tão ruins que parecem evocar o Paradoxo de Zenão, aquele da tartaruga e de Aquiles: os dois apostam uma corrida, sendo que Aquiles permite que a tartaruga largue na frente, pois ele é o homem mais rápido da Grécia. A cada passo, ele reduz a distância entre os dois pela metade. De 4 para 2 metros, de 2 para 1, de 1 para ½ , de ½ para ¼ , consecutivamente. Aquiles é incapaz de ultrapassar a tartaruga, pois sempre faltará uma distância pequena e ele sempre percorrerá apenas metade desta distância.

Com as séries ruins a situação é similar, você assiste um capítulo, tem vontade de desistir, mas decide dar uma chance para série, assiste outro, o estômago embrulha, mas dizem que ela melhora a partir do sexto episódio, você assiste o sexto episódio e não desiste, pois agora só falta metade, e assim vai. Parece que nunca vai acabar. Como na história do paradoxo.

Felizmente, a realidade não suporta muito a fantasia humana e há um capítulo final para Punho de Ferro.

Até agora – a metade! Fatídica – a série é uma decepção enorme. Nem tanto pelo personagem, que combina bem com os outros personagens das séries anteriores, mas sim pelo conjunto da obra.

Enquanto as séries anteriores tinham cuidado de valorizar aspectos culturais específicos do cenário específico da série, por exemplo, o que foi feito com a cultura do Harlem em Luke Cage, Punho de Ferro abusa de clichês da cultura chinesa. Os vilões são caricatos e as referências culturais são feitas por quem decidiu pesquisar no Reddit o que é ser chinês. Mesmo a personagem Colleen Wing não é usada neste sentido.

Como série de artes marciais, parece que foi feita por um fã que decidiu copiar todos os filmes referência ao invés de contratar os profissionais do setor. As lutas são banais, sem graça e toscas. E o próprio comportamento de Danny Rand parece ser retirado de guias de filosofia baratos. Ele sequer respeita o dojo da Colleen.

As séries anteriores também conquistaram a audiência ao proporem temas atuais e de difícil digestão. O grande vilão de Jessica Jones e a forma como ele abusa da personagem é o principal prato da série. Em Punho de Ferro temos um bando de capitalistas maus (isso quer dizer, idiotas e mesquinhos, já que os capitalistas americanos sabem que ganhar dinheiro é mais do que ser “esperto” e facilmente achariam uma forma de lucrar com um herdeiro bonzinho como é Danny Rand) lutando pelo controle da empresa. Até Danny, a princípio um hippie-chic, que não sabia dirigir, adquire um carrão e usa e abusa do seu poderio econômico para ficar na cola de Colleen (ele constantemente oferece dinheiro para ela e compra o prédio onde fica o dojo). É um babaca criado com leitinho pela avó. Seus “rivais”, os Ward e Joy Michum não são muito melhores em termo de visão, mas ao menos Ward é um personagem que provoca empatia em sua queda, causada pela pressão do insuportável Harold (um vilão tão metido a malzinho, que faz o Esqueleto do He-man parecer possuir a profundidade psicológica de um personagem de Dostoievski). É uma série sobre os 1%, escrita com 1% de esforço e nenhuma inspiração.

Existem alguns momentos, mas são oásis no deserto, que não justificam a série. Ou seja, no fundo, Aquiles deveria ter percebido o ridículo e abandonado a corrida contra uma tartaruga. Os muros de Tróia ainda precisavam ser desafiados.

 

Quem quiser me ouvir falando de Punho de Ferro e outras séries e filmes baseados em HQs, basta clicar aqui e acompanhar o X-POILERS!


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