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Tão mulher quanto maravilha

Os primeiros filmes do Universo Cinematográfico da DC são tão ruins que os poucos minutos da Mulher-Maravilha no Batman vs.Supermen foram o suficiente para despertar a esperança de serem feitos bons filmes com os personagens da DC (o que é curioso, uma vez que os dois melhores filmes de super-heróis são com personagens da DC: o Super-homem de Richard Donner e o Cavaleiro das Trevas de Christopher Nolan). Assim, todas as fichas foram colocadas no filme da Mulher-Maravilha.

Sem ter muitas expectativas, eu já achava que se o filme da Mulher-Maravilha conseguisse funcionar para a DC mais ou menos como o X-men de Bryan Singer e o Homem-Aranha de Sam Raimi funcionou para a Marvel nos anos 90, já seria um grande avanço. O resultado, porém é bem melhor. Se no primeiro filme, Gal Gadot precisou apenas de sorrir e vestir o uniforme, agora ela nem parece estar usando o uniforme. E continua sorrindo.

Nos dois filmes já citados, existe um grande trunfo que são os dois atores principais. Christian Bale é bom o suficiente para criar tanto um Batman quanto um Bruce Wayne consistente, com expressões e posturas corporais diferentes para cada faceta do personagem. Ele também é capaz de aguentar a demanda física que o Batman exige sem comprometer a interpretação. Já Christopher Reeve consegue algo similar fazendo com que a personalidade do Super-homem suma quando Clark Kent está na tela com um impecável timing cômico. Reeve ainda tem um extra, um carisma que nada tem a ver com técnica. Gal Gadot consegue a mesma coisa. Ela é a Mulher-Maravilha e mesmo que o filme não ofereça uma segunda personagem para ela – ela é sempre a princesa Diana e apenas momentaneamente é Diana Prince, mas é apenas um acaso momentâneo, basicamente uma das gags do filme – ela é tão convincente em batalha, sendo super, quanto durante as outras cenas, sendo uma inocente estrangeira descobrindo um novo mundo (é mais uma versão da história da origem do Buda, exceto que ao invés de deixar uma torre, ela deixa uma ilha).

O filme também acerta ao levar a história para primeira guerra. Primeiro, cria uma distância do universo cinematográfico (assim como Logan ao levar a história para o futuro) que permite que exista uma história fechada e não um capítulo para um próximo filme. Mas o mais importante, isso combina com a principal referência do filme. Não estou falando dos quadrinhos de George Pérez, mas sim do filme de Richard Donner. Algumas vezes, parece que a ordem era ver o que foi feito em 1978 e trazer de volta para 2017. Não é apenas nas referências diretas, como a cena em que ela bloqueia um tiro e salva Trevor, que é uma cópia da cena em que Clark Kent faz o mesmo para salvar Lois em uma nada sutil inversão de gênero, mas em toda atmosfera do filme.

Zack Snyder tentou se afastar o máximo do Super-homem de 1978, Patty Jenkins criou um filme-irmão. (ou irmã). Nada de cenhos franzidos, crises existências, questionamentos e muita angústia adolescente: Diana sorri como filosofia de vida, enfrenta os inimigos com determinação e tem absolutamente certeza de seu destino. De certa forma, ela poderia citar uma das primeiras heroínas (não no sentido grego) da literatura, Scheherazade, que respondia para o pai que “era imperativo” que ela se casasse com o sultão Shahryar. Como a Rainha Hipólita parece aceitar, não é possível dissuadi-la. Assim, como o filme de Donner, o filme de Jenkins procura se apoiar no humor e na interação do personagem super com os humanos. Diana quer ser uma heroína e quer ser humana.

Com a ajuda de Chris Pine, azeitado pela experiência como Capitão Kirk, Gal Gadot consegue fazer do filme algo convincente e que não se sustenta apenas pelo discurso ideológico. Sim, Mulher Maravilha não é discreto na sua mensagem pacifista e nem na mensagem feminista. Chega a ser direto como um pugilista algumas vezes. Sem Gadot esse discurso poderia se tornar chato e causar alguma repulsa de parte do público, com ela – com o sorriso dela – vai chegar aos ouvidos de milhões de machos do mundo.

Claro, a visão de uma diretora ajudou bastante também. Apesar da beleza da Mulher-Maravilha e uma ou outra menção sobre o uniforme, nada disso tem muita importância. Não há preocupação em mostrar Diana como sendo sensual (na verdade a personagem é bem inocente, tendo lido ou não os dozes volumes do tratado de Cleo) ou como uma versão masculina de uma guerreira. Ela é capaz de demolir uma torre e lançar tanques de guerra para o alto, mas o que vemos não é força bruta, sim determinação e um estilo próprio de combate e movimentação.

Existem obras que podem ser destruídas por um defeito (não é mesmo, Finn Jones?), mas os defeitos que existem no filme são encobridos pelos acertos. Sim, slow motion demais. Sim, piruetas de monges shaolins demais. Sim, temos a irritante mania de apresentar outras mitologias como falsas, ou transformando em deuses astronautas ou em versões do mito judaico-cristão, que é o caso deste filme, já que Ares é quase Lucífer, Zeus é quase Javé e Diana é quase Jesus.  Mas o maior defeito são os personagens secundários. Diana e Trevor estão muito bem e o filme é sobre eles. Não é sobre a atuação dos atores, mas mesmo Hipólita (quem entende bem as mudanças de convicção da rainha?) e os dois outros vilões (o filme usa a tática de colocar nazistas como vilões, mesmo sendo na primeira guerra, reconhecemos um nazista quando vemos um) não são muito desenvolvidos. Entendemos Ares e estava tudo bem até que ele foi transformado de um político almofadinha em um vilão final de videogame. Tanto o Super-homem de Donner quanto O Cavaleiro das Trevas (um dos poucos filmes que consegue ter dois vilões interessantes sem que um deles vire um lacaio patético do outro e que conta  com Gary Oldman, Michael Caine e Morgan Freeman) usaram bem os personagens secundários.

Resolvam isso para o próximo filme e qualquer outro filme da DC e pronto. A angústia será apenas dos fãs dos três maiores super-heróis dos quadrinhos quando se lembrarem de que houve uma época pré-Mulher Maravilha.

Quem quiser me ouvir falando de séries e filmes baseados em HQs, basta clicar aqui e acompanhar o X-POILERS!


#mulhermarivlha #batman #superhomem #dccomics

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