A literatura gótica nasceu no século XVIII e prosperou nos anos seguintes criando um contraponto com a cultura cosmopolita dos grandes e emergentes centros urbanos que cresciam naquele período. Os temas góticos, com seus castelos abandonados, grandes espaços rurais desolados e seus fantasmas insistiram em perseguir a imaginação romântica, desafiando a racionalidade do homem urbano. Quanto a literatura gótica chegou aos Estados Unidos, não havia castelos, mas sim comunidades rurais cercadas por intermináveis florestas, constantemente cortadas por ventos. Havia ali, um ambiente sombrio atraente e o gótico americano gerou uma tradição narrativa de qualidade, com autores como Washington Irving, Nathaniel Hawthorne, Edgar Allan Poe e Willian Faulkner.

A Bruxa, filme de Robert Eggers, é um resgate desta tradição. Nada do terror adolescente e violento que reflete a fascinação americana pelos serial-killers e nem do terror do susto fácil e a fascinação pelo bizarro do horror japonês. Na melhor tradição gótica, há uma ideia que deve ser construída para que a experiência do horror – e não o susto, coisa que podemos sentir assistindo Indiana Jones – seja consumado, em através de uma figura tradicional. Não vampiros ou fantasmas, mas uma bruxa, medieval em seu satanismo, que não abre espaço para as visões modernas e feministas. É uma bruxa, ela é má e vai dançar nua com o demônio no Sabat.

A Bruxa é um filme tenso. Não está interessado em criar dúvidas no espectador e sugerir que o que acontece é psicológico. Seguindo o conselho de Poe, é curto e direto ao ponto. Quando chega ao seu ápice, o filme chega ao fim, sem surpresas e reviravoltas finais. O que vai acontecer é exatamente o que é dito que vai acontecer, ainda que encoberto por sombras. A moral da história é evidente: o puritanismo religioso criou as suas próprias bruxas.

Talvez possamos dizer que a força do filme é a sua fraqueza: ele não assusta ninguém. Mas isso seria não reconhecer que o verdadeiro horror é aquele estado de transe em que o leitor ou espectador sente-se prisioneiro de uma aflição e mesmo sabendo estar em um pesadelo, não tem como acordar. Ele implora pelo o susto fácil, que não chega. Não há uma fuga possível.

Não que possamos realmente fugir da tradição, podemos apenas aprendemos a lidar com ela.


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