É algo que tenho notado: o universo cinematográfico das duas maiores editoras de quadrinho de super-heróis tem seguido direções similares aos universos construídos nos quadrinhos. De um lado a DC, que é dona dos personagens mais ricos (estamos falando do Batman e do Super-homem, mas não somente deles), mas que é incapaz de gerenciá-los com competência. Quando conseguiu, produziu as melhores revistas do gênero ou filmes (estamos falando do segundo filme do Nolan e do primeiro filme do Richard Donner e de revistas como A Piada Mortal, Cavaleiro das Trevas e Kingdom Come). Filmes que são bons, apesar de estilos diferentes, por conseguirem um conjunto coerente (boa direção, bom roteiro e atores convincentes) que exploram a essência dos dois personagens. Note também que a construção de universo cinematográfico da DC é confuso tal como acontece nas revistas: não há ligação aparentemente entre nenhum dos filmes e séries (exceto as óbvias continuações, que incluem aquele pastiche dos filmes de Richard Donner que foi o Super-homem do Brian Singer) e eles estão basicamente criando vários universos paralelos.

Do outro lado, a Marvel, com personagens carismáticos, mais modernos e violentos, que são mais maleáveis: é bem fácil produzir essas aventuras meio que chiclete de mascar com eles. A tentativa mais elaborada, o Hulk de Ang Lee, foi um dos principais fracassos dos filmes recentes. A Marvel achou a fórmula do entretenimento popular e é capaz de coordenar de maneira mais coerente um universo único (apesar de alguns dos personagens pertencerem à diferentes estúdios) e consegue variar entre o tom juvenil do Homem de Ferro e o mais adulto da série do Demolidor ou Agente Carter(a DC, mesmo possuindo um universo adulto próprio de reconhecida qualidade, não chegou perto quando investiu em Constantine e na série Lúcifer. Percebam que um dos motivos para justificar a série de Constantine ser produzida sem muitos dos elementos que a fizeram famosa foi a censura que impediria a série de ter audiência na TV não se justifica a não ser que passe pela completa ignorância to teor do personagem que não tem potencial nenhum para o gênero juvenil de super-heróis tradicionais).

Esses defeitos da DC explicam o motivo pelo qual o filme Batman VS. Super-homem é um fracasso e, apesar disso, os executivos insistem em seguir um plano original entregando para Ben Affleck um filme do Batman e Zack Snyder a condução da Liga da Justiça.

Não é nem ao menos polêmico, o novo filme vai ter uma boa bilheteria, mas falhou por que é um filme ruim, do tipo que deveria ser esquecido na prateleira com os Batmans de Joe Schumacher, Super-homem IV, todos os filmes do Quarteto Fantástico (nem a Jessica Alba salva) e aquele do Capitão América que a Marvel pagou para ser recolhido do mercado.

O primeiro problema são os atores. Ben Affleck é um péssimo ator (e que já havia afundado em um filme de super-heróis com um personagem muito próximo do Batman, o Demolidor). Ainda que fisicamente não seja uma escolha tão ruim quanto Michael Keaton, ele não é capaz de alterar em nada as nuances mais óbvias entre Batman e Bruce Wayne. Ele só não exposto por que o filme falha em construir um Batman que demande alguma capacidade de alternar emoções. Henry Cavill é fraco, mas Jessie Einseberg é pior, por que parece tentar copiar alguns dos maneirismos de Heath Ledger para o Coringa (o jeito de falar certas palavras, alongando a última sílaba, o franzir do rosto, o olhar vago antes de fazer algo de notável). Os personagens secundários, ao contrário da fórmula de Nolan, são apenas acessórios irrelevantes. Temos, é claro, Gal Gadot, que é muito bonita e tem presença, mas convenhamos, ela não atua, ela desfila. Não há em nenhum das cenas que ela participou algo mais do que saber posar para uma câmera. Ela viverá a Mulher-Maravilha realmente no filme solo da heroína.

Isso por que não há no roteiro diálogos ou desenvolvimento de qualquer um dos personagens. Eles são tão mal conduzidos que chega a abafar o fato de que os atores não têm talento para vestir o uniforme. No primeiro filme do Super-homem, já havia ocorrido uma destruição do Super-homem, com a total supressão do lado Clark Kent, que continua neste filme. Bruce Wayne também não existe neste filme. E Lex Luthor é reduzido a um cientista louco que quer, aparentemente, destruir o mundo. Mas o roteiro não tem somente diálogos ruins, tem ideias ruins, como a decisão estapafúrdia de transformar Gotham basicamente em um bairro de Metrópolis (ou vice-versa).

Qual o motivo disto exceto justificar a movimentação do Batman e do Super-homem, coisa que nunca foi problema nos quadrinhos e animações que mostravam os dois personagens interagindo. Imaginem o ridículo de existir dois super-heróis tão distintos e dominantes tão próximos. E o ridículo de Lex Luthor afirmar que Bruce Wayne finalmente havia vindo para Metropólis. Como?

Outra falha do roteiro é o ápice do filme. A briga entre os dois é apenas um gostinho para os leitores que conhecem o Cavaleiro das Trevas, mas ao contrário da sequência clássica, em que todo aparato que Bruce Wayne usa para lutar com Clark Kent é uma distração para conseguir deixá-lo próximo o suficiente da kryptonita, o combate do filme é gratuito e sem sentido.  O Batman se prepara para uma luta que só acontece por uma chantagem de Lex Luthor. Ou seja, se não fosse Luthor, ele poderia passar dias esperando o aparecimento de Super-homem, que lembremos, havia desaparecido desde o atentado no Capitólio. E ainda mais, o Batman começa a luta deixando a sua principal arma (a lança de kryptonita) completamente fora do seu alcance. Tudo bem, esse Super-homem não sabe usar a visão de raios-X e tem a visão bloqueada por uma bomba de fumaça.

Esperar diferenças do universo canônico (Batman mata, Super-homem também) é razoável, mas qual o motivo destas mudanças. E pense em como a continuidade do universo DC no cinema fica comprometida com um Batman já velho, sem um passado para contar, enquanto o restante da Liga estará começando. E em um universo distópico em que os principais símbolos heroicos são violentos e não parecem colocar a segurança da sociedade acima de suas paixões principais.

O elemento final é o diretor. Zack Snyder é muito ruim. Seus filmes têm certas características: ele tem um apuro visual bom, é capaz de produzir cenas legais, mas nenhuma narrativa. Pensem em 300 ou Sucker Punch. Pensem na cena em que a Mulher-maravilha finalmente surge, na música, na câmara lenta, no cabelo esvoaçante (quebrados pelo momento de humor desconfortável, afinal o Batman sabia quem ela era e que não estava com o Super-homem). É uma cena típica de um videogame. Aqueles vídeos que permitem um corte no jogo e servem para dar alguma narrativa, muitas vezes interligando fases ou dando origem a um combate. Mas serve para videogames, eu repito. Para um filme ela é estranhamente fora de propósito, um painel perdido de página inteira de uma revista. Muito legal de se ver, mas as paredes do meu quarto não têm mais espaço para novos pôsteres.

Mas eu menti, esse não era o elemento final. Para você que, como eu, finalmente viu uma cena do Super-homem, Batman e Mulher-Maravilha juntos no cinema e prefere perdoar todos os erros deste filme, negando todos os defeitos que apontei;  tenho uma surpresa. Assim como o Batman, guardei a principal arma para o final. Martha.

Isso, Martha e não há controvérsia. Esse filme é horrível.


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