Na última vez que escrevi sobre “Deuses Americanos”, comentei que a série começava a apresentar algumas pequenas mudanças que poderiam fazer com que a história se desenrolasse de maneira diferente da apresentada no livro de Neil Gaiman. Essas mudanças eram sutis, mas o último episódio da série, A murder of Gods, apresentou mudanças bem mais significativas. Basicamente, todo o episódio foi uma novidade.

De um lado, Laura, Mad Sweeney e Salim partem em busca… bom, Mad já achou o que procurava, mas oferece a Laura uma possibilidade de ressurreição sem a necessidade da moeda. Laura está a procura de Shadow. Salim do jinn. No livro, Laura quer voltar a viver, mas esta busca faz parte da história de Shadow. Mad tem uma participação muito pequena na história e Salim, o motorista de taxi, sequer participa dos eventos da história (sua morte é sugerida em determinado ponto do livro, mas é algo sem importância).

Tudo isso faz parte da tentativa de explorar melhor o personagem Laura, que assim ganhou dois companheiros de estrada. No livro, ela aparece no livro apenas interagindo com Shadow, até a conclusão final, quando temos cenas em que ela funciona de maneira autônoma. Verdade que ela não fica ao lado de Shadow o tempo todo, pois encontra dificuldade em manter as aparências (é um cadáver em decomposição, afinal de contas), mas o desejo de descobrir uma forma de trazer Laura de volta é uma das principais motivações de Shadow. Se Mad já conhece uma forma, como se justificará certas decisões que Shadow toma no ato final da história?

Mudanças mais relevantes ocorrem nas viagens de Wednesday e Shadow. Eles vão para uma cidadezinha encontrar Vulcano, o deus coxo e ferreiro do panteão Grego. No livro, ele não participa da história e por um momento parecia possível que ele estivesse substituindo o papel de algum outro deus. No livro, Easter (mas ela vai aparecer na série) parece estar conformada em ser adorada “de tabela”, pois o feriado da Páscoa absorveu alguns de seus rituais e ela consegue sobreviver assim. Vulcano também está satisfeito em ficar com as sobras da adoração americana às armas de fogo, que ele fabrica.

Mas, diferente do livro, Vulcano é um deus antigo que decide trair Wednesday para que não aconteça mudança alguma. Dois terços do livro lidam com o esforço de Wednesday em unir os deuses antigos em torno de um só objetivo e não há um deus antigo traidor. Alguns preferem não interferir, mas não há uma união com os deuses modernos. Na série, os deuses modernos parecem genuinamente interessados em negociar e conviver com os deuses antigos que se ajustarem ao novo mundo. No livro, até o “ambiente” do novo mundo é hostil aos deuses e apenas por causa das ações de Shadow, uma espécie de paz é alcançada.

É claro, a introdução de Vulcano permitiu a série partir para uma crítica social contra a indústria das armas de fogo, intensificada por mais um conto inicial mostrando a chegada dos deuses na América. Mas esse conto foi especial: ele mostra deuses ainda chegando no presente: mexicanos cruzando a fronteira e trazendo Jesus com eles e sendo massacrados por milícias, que também são cristãos. No livro Gaiman não toca na religião cristã, a série parece estar pronta para qualquer polêmica.

Mas uma questão maior para mim é tal espada matadora de deuses que Vulcano forja. Pode ser uma lorota, mas no livro não há espaço para um item mágico destes feitos para uma missão (há itens simbólicos, mas nada de excalibur ou um anel) e essa ideia vai contra algo relevante na história: os deuses podem ser mortos pelas mesmas coisas que matam os mortais. São mais resistentes, têm poderes e o que for, mas um tiro na cabeça, um atropelamento, uma bomba são igualmente mortais (e por que não seriam? afinal são produtos dos deuses modernos). Criar um item único com esse poder faz com que apenas o portador deste item possa matar deuses e isso torna os eventos finais da obra de Gaiman impossíveis de acontecer. Por mais Odin que Wednesday tenha parecido. E espero que ela não se torne um elemento primordial para o sacrifício final que Wednesay precisa fazer para finalizar o seu plano. Seria uma mudança muito grande e muito clichê.

Por mais interessante que possa ser a interação Laura-Mad-Salim e a presença de uma variedade maior de deuses, o episódio desta semana deixa uma questão no ar para quem leu o livro (aqui um artigo sobre o livro que eu escrevi na semana passada): o que vai acontecer agora?

Talvez só os deuses saibam.

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