O contista e dramaturgo russo Chekhov era uma especialista em escrever apenas o essencial, ao ponto de suprimir de contos já prontos, o início e o fim, por que serviam apenas para ele desenvolver a trama e nada diziam de importante para o leitor. Uma das suas máximas acabou se tornando uma regra narrativa (mas como toda regra narrativa, ela é tão confiável quanto promessa de bêbedo): a pistola de Chekhov. Essa regra pode ser resumida assim: se uma pistola aparece no primeiro ato, ela deve disparar no ato seguinte. Graças ao final de temporada do Game of Thrones, podemos batizar essa regra como a adaga do mindinho.

Sim, foi algo muito óbvio – aqui mesmo eu já tinha falado na justiça poética de ver Littlefinger (finalmente) morto com a mesma adaga que ele usara para criar toda a rixa entre Lannisters e Starks. Talvez a audiência da televisão tenha se acostumado aos constantes “plot twists” para sentir alguma emoção. Eu não. Acho um jogo barato. O que espero é a capacidade do autor de me surpreender com algo já esperado. Ele dá uma piscadela de um lado e eu respondo com outra piscadela. David Lynch faz isso o tempo todo em Twin Peaks.

Por alguns segundos, até pareceu que eles repetiriam o erro de fazer um personagem agir foram de caráter, como no momento em fizeram  Sansa agir com  crueldade para dar aos espectadores alguma satisfação ao verem Ramsey morto de maneira violenta. Sansa parecia estar dando crédito demais aos sussurros de Littlefinger, sendo que ela já demonstrava certo desprezo por ele e mais uma vez, dava as costas para a família. Isso faria de todo amadurecimento que ela mostrou nas sete temporadas inútil.

O verdadeiro problema é que Littlefinger não enganava ninguém. Assim, a grande surpresa é entender como ele durou tanto tempo. A necessidade do  eliminar as distrações para focar na única trama que sobrou (Lannisters vs.Starks/Targaryens vs.Night King) acabou com toda boa vontade dos roteiristas. A satisfação foi entregue para o público, o óbvio aconteceu como deveria e o brasão com um mindinho não vai ser erguido tão cedo em lugar nenhum.

A sétima temporada acabou, cheia de problemas de coerência e continuidade, mas a oitava final promete ser bem mais simples, sem distrações e tramas paralelas.

É possível que os fãs de Game of Thrones tenham de esperar mais de um ano para ver como a história vai terminar. Talvez George R.R. Martin termine um livro neste meio tempo. Talvez os escritores possam trabalhar o roteiro melhor para eliminar todas as inconsistências que enriqueceram essa temporada. Pode ser uma boa espera e se dois anos parecem ser muito, lembre-se que Twin Peaks levou 25 anos e valeu muito a pena.

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