Aparentemente, todas as narrativas começam em uma barbearia do Harlem.

Ou ao menos, isso se tornou um lugar-comum, um clichê, desde o dia em que Spike Lee, com o seu filme “Faça a coisa certa”, conseguiu abrir espaço para a produção cinematográfica que explorava a região e o cinema afro-americano, de um jeito diferente da Blaxploitation dos anos 70. No “Faça a coisa certa” era em uma pizzaria o ponto de encontro, mas as regras estão lá, para todo cineasta seguir. A nova série da Marvel e da Netflix, Luke Cage, seguiu a regra.

Isso não é ruim. O que a Netflix faz é exatamente aproveitar as suas referências e apostar na aceitação de seu público alvo, um público que ela seleciona com precisão. Nada das ambições das megaproduções da HBO, que algumas vezes funcionam e outras não. O importante é ter cuidado com público que ela cativa, no melhor estilo Pequeno Príncipe.

É claro, a série não é somente Spike Lee. Elementos dos anos 70 estão de volta, mas a outra referência de importância são os quadrinhos. Os atores movem-se sem pressa, o enquadramento é bem parecido com o enquadramento das revistinhas, inclusive com momentos em que os atores se dirigem para a tela. Algo muito mais elegante do que as câmaras lentas de Zack Snyder, por que respeita a continuidade da narrativa – algo que une Cinema e Quadrinhos. Você não para a fim de admirar painéis, que de certa forma, destroem o ritmo da história. Estamos falando de uma arte sequencial e há uma diferença em pintar uma bela imagem e criar a ilusão de movimento de várias imagens em sequência.

A Netflix adapta histórias em quadrinhos, algo que Snyder não é capaz de fazer. Por isso é capaz de fazer tanto com tão pouco: personagens menores (mesmo que o Demolidor seja bem mais importante do que alguns dos Vingadores, exatamente por ser o personagem que consagrou Frank Miller), situações mais intimistas, menos poderes espetaculares, menos granas e mais autenticidade.

Os vilões de Luke Cage não são poderosos ou famosos. Francamente, nem o personagem Luke Cage é, mesmo tendo sido parte do Quarteto Fantástico. Por muito tempo, foi apenas um dos poucos personagens negros da Marvel e dos quadrinhos em geral, juntamente com Pantera Negra, Falcão, Ororo ou o Raio Negro. A história do primeiro episódio poderia ser sobre um personagem sem poderes alguns: é algo sobre jovens que roubam o dinheiro de um dos líderes criminosos do Harlem. Há o envolvimento da política e questão racial por trás disto. Muito pouca ação.

Mas não foi necessário, os personagens foram introduzidos e mais importante: o cenário familiar para o espectador foi apresentado. Estamos todos confortáveis para assistir a série até o final e esperar pelos desdobramentos, como a série do Punho de Ferro e a futura série dos Defensores.

Que obviamente começará em uma barbearia.

Atenção galera, desde setembro eu tenho participado do X-Poilers, programa semanal sobre séries de tv baseadas em  quadrinhos. Confere lá.


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