Eu tenho evitado escrever constantemente sobre o retorno de Twin Peaks para não cair na armadilha de ficar tentando decifrar cada episódio, ao invés de relaxar e curtir a experiência de ver David Lynch sem amarras toda semana. Mas o último episódio que foi ao ar é daqueles que provoca uma enxurrada de palavras.

No 8ºepisódio temos uma grande surpresa. Não estou falando da viagem metafísica por uma explosão atômica, algo que Lynch pensaria em apresentar, mas de algo que ele costuma não fazer: explicar a origem de Bob e dos espíritos do Black Lodge (ou ao menos, como eles entraram neste mundo). Está tudo relacionado com os testes da Bomba Atômica. Mas Lynch é Lynch, o episódio é tão expressivo que essa explicação quase passa despercebida.

A verdade é que muita gente ainda usa o termo “experimental” para se referir ao diretor. Esqueçam isso, não há nada de experimental no retorno de Twin Peaks. Para David Lynch, essas variações de linguagem são coisas tão comuns quando sonetos eram para Shakespeare. Há uma maturidade clara nas escolhas que ele faz: um controle que tem feito desta série uma experiência tão revigorante e inovadora quanto a série original.

Para quem não acompanhou o original e o filme “Fire walk with me”, pode ter parecido algo sem sentido: começamos seguindo um automóvel, em cenas noturnas bem conhecidas do repertório de David Lynch, quando o clone de Cooper é atraiçoado por um aliado e baleado. Mas ele não morre, espíritos (que já surgiram na série algumas vezes e têm origem no filme Mulholand Drive – que devemos lembrar, nasceu como um spin-off de Twin Peaks, já que era para ser uma história sobre Audrey Horne) parecem revivê-lo.

Temos um momento musical nesta que é a melhor casa de show de uma cidadezinha americana com o Nine Inch Nails e uma música cuja letra parece sugerir alguns dos acontecimentos que acontecerão no episódio.  Então Lynch puxa o tapete.

Voltamos para 1945 e presenciamos o primeiro teste de uma Bomba Atômica. Viajamos no melhor estilo Stanley Kubrick pelo cogumelo. Entramos no mundo espiritual e vemos algo que parece ser o nascimento de Bob. Encontramos o gigante e uma amiga e vemos o nascimento de Laura Palmer (nascimento, ou surgimento, creio eu, de tudo que eles significam e não especificamente da personagem).

Agora avançamos no tempo e entramos em um filme preto-e-branco típico dos anos 50 que explora o medo da era atômica. Lynch decide fazer um filme B, com criaturas radioativas, só que são os espíritos do Black Lodge, recitando versos obscuros, e um sapo-barata que rasteja até entrar na boca de uma adolescente – a imagem da inocência – e esse é o momento de horror, pois essa menina é e não é Laura Palmer, esse batráquio alado é e não é Bob/Leland. Lynch pode ter sido literal: foi assim que tudo começou e Laura Palmer não seria a primeira vítima dos espíritos do Black Lodge, sempre em busca de dor, medo e destruição (Bomba Atômica) e garmonbozia. Mas pode ser apenas uma forma poética (a poética dos filmes B, ou quando você entende que o monstro nuclear que ataca alguns jovens nem sempre é um apenas um monstro) de mostrar o que aconteceu com Laura e Leland. Como Dante ensinou, pode ser ambos.

Eu sei que se você deu azar de começar assistir a série por este episódio, você vai desistir. Eu sei que é uma pena. Twin Peaks esta acontecendo de novo e de maneira bem pouco característica é algo completamente novo.

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