Demorei a encontrar palavras para falar de Twin Peaks: o retorno novamente. Não queria perder tempo com teorias e explicações que agora enchem as páginas de internet, pois a série não foi feita para ser resumida aos detalhes da trama, mesmo por que, poucas tramas de David Lynch foram tão diretas e claras como essa.

Sim, nunca saberemos todos os detalhes (mas saber quem é a menina que engole o grilo mutante no episódio 8 faz qualquer diferença? O mal que os habitantes do Black Lodge causam e utilizam são encontrados em todos nós, mesmo em Dale Cooper, portanto aquela menina não precisa ser Sarah Palmer como tantos especularam), mas a história é perfeitamente lógica, entrelaçando a série clássica e o filme Fogo anda comigo. Sabemos que Cooper está destinado a tentar salvar Laura Palmer e Bob a tentar destruí-la, não importa em que realidade, em um ciclo contínuo de caos e ordem.

O que importa é como Lynch fez isso. Sem as amarras de um estúdio demandando audiência ou explicações, Lynch fez o que quis. Isso incluiu cenas com efeitos especiais ridículos (que podemos chamar de lynchianos), pessoas varrendo, videoclipes e homenagens aos atores que morreram durante a produção da temporada. Isso também incluiu um diretor ciente de cada técnica narrativa que empregou e talvez no seu auge. Twin Peaks foi uma experiência agradável e intrigante: não sabíamos como seria cada episódio, qual tipo de enfoque seria utilizado e assim tivemos comédias suburbanas em tons pastéis, filmes B dos anos 50 em preto e branco, surrealismo visual e trailers modernos violentos. Em todos os aspectos, Lynch dominou a cena e conduziu o nosso olhar para onde ele queria e algumas vezes queria que olhássemos para soquetes de tomada (mas afinal, a eletricidade era importante).

O primeiro Twin Peaks foi revolucionário por explorar um território que as novelas de televisão da época não ousavam explorar. Agora, Lynch explora o universo das séries que usam serviço de streaming. Quando Lynch disse que O Retorno era um filme de 18 horas, muitos cometeram o erro de imaginar um filme tradicional: um longa-metragem que seria dividido em 18 partes por uma questão de conveniência da emissora. Mas é um filme de 18 horas com 18 capítulos criados como unidades independentes e lógicas. Ninguém comete o erro de dizer que uma Novela, como Guerra e Paz ou Madame Bovary são divididas em capítulos por uma mera necessidade de publicação. Não, Tolstoi e Flaubert planejaram cada capítulo e desenvolveram técnicas para garantir que cada um fosse uma parte independente que compunha o todo. Assim é Twin Peaks: o retorno. David Lynch está jogando com as possibilidades do meio, inclusive sugerindo constantemente a discrepância tecnológica entre a série original e a moderna por meio dos elementos de cena, como na delegacia de polícia, cheios de Lucy e computadores modernos.

Outro aspecto já presente na série clássica é a metalinguagem. Ao explorar a novidade que era levar o padrão cinematográfico de produção, roteiro e direção para o cinema, Lynch aproveitou para jogar com esses temas e motivos da televisão, inclusive com a famosa inclusão da telenovela Invitation to Love que os personagens assistem e que reproduzem alguns dos eventos que aconteciam na série, no melhor estilo conto dentro do conto.

Mas agora há outro jogo metalinguístico. Os personagens da série são espectadores. Quantas vezes eles observam acontecimentos por meio de molduras, enquadramentos, monitores ou até por binóculos? Quantas vezes eles observaram o drama geral se desenvolvendo em total paralisia como se não tivessem nada a ver com isso? Algumas vezes esse drama escapava e atacava a audiência, como no primeiro episódio, com os dois personagens que são chacinados enquanto faziam sexo diante da caixa de vidro transparente. Mas temos de lembrar que os personagens são atores também. Quantos personagens Kyle Maclachlan viveu? Além de Dale Cooper, do Cooper maléfico e do Cooper final que misturava os dois, foi dois Dougie Jones. Desde Kirk Douglas não há um queixo tão marcante em uma tela. E como ele se despede de Gordon e dos outros na delegacia? Uma referência às cortinas do teatro, ecoando Shakespeare e “todo o mundo é um palco”. Não é apenas “a vida é um sonho”, agora é “a vida é um programa de televisão”.

David Lynch se divertiu com referências a tudo que aconteceu em Hollywood e na televisão neste meio-tempo. Arquivo X, super-heróis, Tarantino, Desperate Housewives, Sopranos, Lost e divertiu-se jogando a audiência para baixo e para cima. E no final, se Cooper e Laura estão presos em uma repetição – que é evocada pelo convite de Cooper que espera nos ver novamente e estamos fazendo isso tentando produzir teorias para explicar algo tão explicável quanto uma rosa azul – o que dizer de nós, a audiência? Estamos todos presos.

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