Finalmente posso falar sobre Twin Peaks sem fingir que estou falando de outra série.

Os dois primeiros capítulos do retorno de Twin Peaks já podem ser conferidos na Netflix e deixaram apenas uma certeza: quem esperava encontrar uma repetição da série original vai se desapontar. Nos dois episódios, temos a impressão de que a nova série é mais um daqueles produtos que faz referências ao Twin Peaks original, com a vantagem de ser feito por David Lynch e Mark Frost. Mas tentar repetir a série original seria um erro.

Primeiro por que a televisão mudou (muito por causa de Twin Peaks). Nos anos 80, a televisão era quase um deserto, sem grande talento, originalidade ou ambições. Tudo isso ficava reservado para o cinema. Hoje, temos diversos artistas originais explorando ao máximo as possibilidades do meio. No passado, Lynch era um rei em uma terra de cegos. Hoje, todo mundo tem ao menos um olho aberto. Ter o mesmo impacto seria impossível.

Como o rio de Heraclíto, não seria possível banhar-se novamente nestas águas e é claro, não foi somente a televisão que mudou, mas David Lynch também. Quando criou Twin Peaks, Lynch vinha de Veludo Azul, uma obra sobre pessoas estranhas em um mundo banal. Várias obras de Lynch trabalhavam com esta ideia, mas depois de Twin Peaks ele fez obras como Estrada Perdida e Império dos Sonhos, e neles, o mundo também é estranho. Tudo é claro é uma forma de Lynch usar a linguagem cinematográfica, mas essa é a causa da maior diferença entre as duas séries até o momento.

Twin Peaks nos anos 80 era uma série original, mas com um conceito muito familiar: basicamente uma novela de Dickens. Um assassinato dá início a uma investigação que é bem mais do que descobrir culpados, mas sim conhecer as pessoas envolvidas na história. Especialmente, o Agente Cooper e Laura Palmer. Como Dickens fazia, Lynch e Frost encheram a história de personagens secundários (em menor ou maior escala) e como Dickens, eles têm características exageradas e algumas vezes cômicas. Na medida em que a série mergulhava na vida destes personagens, o sobrenatural foi aparecendo aos poucos no canto da sala ou agachado atrás de um sofá. Era algo sugerido, que muitas pessoas interpretaram como manifestações do subconsciente, da culpa, da dor… É verdade que na maioria das aparições de Bob, Mike, o gigante e o anão aconteciam em sonhos ou quando o personagem que interagia com eles estava sob o efeito de sedativos ou de um tiro na barriga. Mesmo quando Leland é definitivamente possuído, podemos pensar que a personalidade de Bob é retrato de sua loucura. Mas quando a série foi cancelada, esses elementos eram partes concretas da história de Twin Peaks.

A nova série começa bem diferente. O sobrenatural está no centro da tela, saltando dela e cometendo crimes. Pode ser que fosse necessário dar atenção ao sobrenatural, já que o fio condutor da narrativa, o Agente Cooper está preso no Black Lodge e precisa ser libertado. Mas o resultado é que não há aquela lenta jornada da série anterior, a ação é brutal, como a trama envolvendo a versão “negra” do Agente Cooper. Direto e sem humor. Não temos novos personagens. A maioria morre de maneira brutal e com exceção da trama do assassinato em Buckhorn, sequer parece haver algum sentido de narrativa.

Quanto aos antigos personagens, eles todos parecem estar cansados, versões pálidas de seu passado (com exceção de Shelly, mas há algo a se descobrir nesta história, não é?). Talvez, o que Laura Palmer diz para Cooper, que está morta, mas viva, possa ser aplicado para todos eles. 25 anos sem Laura Palmer parece ter deixado James, Ben, Hawk, Sarah sem energia. Como fantasmas se esvaindo aos poucos. Talvez seja um grande ponto da série: o impacto de Laura Palmer e de seu assassinato nesta geração em Twin Peaks.

Mas é difícil de dizer, pois Twin Peaks foi um mero convidado de honra destes dois episódios. Elementos da série parecem surgir para despertar a nossa nostalgia, mas logo são deixados de lado para dar continuidade a história do resgate de Dale Cooper. Mesmo a trilha sonora de Balalamenti é quase ausente. Sabemos que Lynch não é muito propenso a explicar e seria um erro esperar que ele fosse voltar para Twin Peaks exatamente para explicar o que aconteceu com os personagens durante 25 anos. Bastará encontra-los.

É essa a principal lembrança que temos de ter: estamos falando de David Lynch. Não é o David Lynch do início de Twin Peaks, mas aquele que se banhou nas águas da série e se modificou, mas ainda é um dos cineastas mais autênticos e talentosos do mundo atual. Suas marcas registradas estão por todos os cantos, inclusive controle do tempo da história, com aquele olhar aparentemente desinteressado em uma sala até se fixar em um ponto aparentemente sem importância que nos leva eventualmente a cismar com esse ponto, mesmo quando focado no segmento do duplo do agente Cooper .  É o Lynch manipulador com absoluto controle da linguagem cinematográfica ao ponto de muitas vezes deixar a narrativa de lado para trabalhar com a expressão pura. Sinta, não mostre ou conte.

É cedo, impossível, avaliar a história ou dizer o que está acontecendo, mas considerando que passaram 25 anos e não sabemos tudo que estava acontecendo na série original, é bom nos resignarmos a assistir mais um trabalho de David Lynch.

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